Explorador Noturno

Era meia-noite. Estava frio. Estava chovendo. Estava na hora.

Com um guarda-chuva em mãos, eu mergulhei numa Tóquio sombria e chuvosa. Meu objetivo: obter meu “almoço” (meu relógio biológico estava gritando “meio-dia!”) e ver com meus próprios olhos o sonho, cuidadosamente alimentado por quinze anos, tornar-se realidade. Após andar alguns quarteirões, achei uma rua com luzes brilhantes e me aventurei.

2014-04-04-00-59-13Andando numa mistura de rua e calçada, (muitas ruas do japão são assim) eu me peguei admirando os inúmeros letreiros neon com ideogramas incompreensíveis. Alguns tinham figuras e as vezes até palavras com letras romanas ou katakana (um alfabeto japonês usado apenas para escrever palavras estrangeiras) e assim, pude decifrar a entrada de um karaokê e dois restaurantes. Escolhi uma das opções e entrei no local.

Haviam quatro pessoas lá dentro. Um casal sentado no fundo, uma outra pessoa sentada não muito longe e no balcão perto da entrada um homem de negócios por volta de quarenta anos estava sentado, de terno e gravata, olhando os guardanapos à sua frente. Não havia garçons. Eu fiquei parado ali, olhando para o restaurante e, naturalmente, todos eles olharam para mim.

Em dúvida sobre como proceder, decidi sentar no balcão (era a cadeira mais perto da entrada) e checar novamente por alguém que trabalhava aqui. Em meu escrutínio do local, notei que o homem de terno e gravata continuava olhando para mim. Retornando o olhar, eu sorri e acenei.

Agora, deixe-me pausar a história por um momento e explicar sobre o grande marco de aprender uma nova língua. Ele acontece quando pela primeira vez na sua vida sua proficiência com aquele idioma é testada. É como “pagar para ver” num jogo de pôquer e agora está na hora de mostrar as cartas. Não há ninguém que possa ajudar. O marco: Quando você precisa conversar numa língua estrangeira com um nativo. No país dele. Sozinho.

Estava na hora.

“Kon-Konnichiwa.” – Eu disse. O homem me observou com interesse nos olhos. Eu continuei. [Meu nome é Ian. Qual o seu nome?]a.

Então vem o silêncio. Aquele silêncio logo depois de terminar de falar, onde você espera por algum sinal de confirmação de que o nativo entendeu o que foi dito. O homem japonês arregalou os olhos e após um breve momento de surpresa, respondeu com o seu nome!

Próximo passo: [Você consegue falar inglês?] O japonês deu um sorriso amarelo e respondeu “Gomennasai… Eigo wa wakarimasen.” [Me desculpe… eu não entendo inglês.] Okay, vai ser em japonês mesmo.

Nos minutos que se seguiram, Eu (com meu japonês pobre) perguntei como eu poderia pedir alguma comida no restaurante. Para minha surpresa (mal sabia eu que iria me surpreender muito mais nessa viagem) ele estava ansioso para ajudar. Ele me indicou um menu que estava em cima da mesa, mas eu tinha falhado em ver. Me explicou os sabores diferentes de lamenb e chamou o atendente para mim. Durante todo esse tempo, eu consegui entender quase tudo do que ele havia falado.

2014-04-04-01-12-19Eu decidi pedir uma porção de gyozac e um Shoyu lamen. O total deu ¥590 (cerca de 12 reais na época). Enquanto esperava minha comida, tentei discretamente observar como eles comiam sua comida, para saber se eu comeria da maneira correta. Apenas alguns minutos depois, meu “almoço” estava à minha frente. Hora de comer.

O homem japonês me chamou novamente. Ele queria explicar os molhos diferentes que eu poderia usar em meu gyoza. Uma pessoa muito simpática e prestativa. Assim que sua explicação terminou, após curvar-se bastante, com inúmeros sorrisos, seu lamen também ficou pronto. A comida estava boa e os gyozas estavam maravilhosos, especialmente com o molho de pimenta (que não é tão comum para japoneses).

Após comer, estava na hora de novamente testar minha habilidade no japonês. Eu ofereci meu cartão com meu nome e e-mail. Ele ficou impressionado! O que se sucedeu foi uma conversa bem engraçada sobre viagens internacionais e comida. Durante a conversa eu perguntei como deveria pagar pela minha refeição e ele gritou “Okaike!”, que mais pra frente eu descobriria que significava “A conta, por favor!”.

Ele saiu primeiro, após curvar-se mais uma vez e elogiar meu japonês. Mas assim que eu saí do restaurante, eu vi aquele mesmo homem de negócios com seu terno na cabeça, tentando não se molhar muito na chuva, enquanto caminhava pela rua. Eu não pensei duas vezes. Ofereci meu guarda chuva e juntos fomos até o local onde ele havia estacionado seu carro, alguns quarteirões de distância. Ele repetiu [Não é necessário!] e [Muito obrigado!] muitas vezes e com isso, ele foi embora. Com um sorriso de orelha a orelha, estava na hora de voltar para o meu hotel. Então de repente eu percebi que eu não tinha a menor idéia de onde estava.

Enquanto acompanhava o homem japonês até seu carro, eu não prestei atenção para onde estava indo e para piorar, estava bem escuro e chovendo muito. Eu ainda não havia habilitado a internet no meu celular então google maps não era uma opção. Eu também não sabia o caminho de volta para o restaurante. Pelos próximos quarenta minutos, eu vagueei pelas ruas de Shinjuku, tentando achar alguém para me dar informações.

Finalmente achei uma Konbini, uma loja de conveniência. Elas estão em todo o Japão e sempre estão abertas 24h todos os dias. Dentro, um gentil senhor japonês pegou um mapa bem grande e me mostrou como voltar para meu hotel (sim, todas as informações foram em japonês).

Cinco minutos depois eu finalmente havia chegado no hotel. Estava ensopado e indelevelmente maravilhado. Eu finalmente estava no Japão.

a As frases entre colchetes foram faladas originalmente em Japonês.

b Lamen (ラーメン) é um prato de macarrão típico do japão, servido numa sopa rica em sabor e com vários acompanhamentos. Em breve faremos um post sobre o Lamen no blog!

c Gyoza é um tipo de pastel japonês, recheado de carne de porco e nirá. Ele pode ser frito ou feito no vapor. Mais informações sobre ele em breve no blog.

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